Que me lembre bem, nunca fui uma pessoa paciente, calma ou leve. Cheguei para abalar sua quietude mansa, chorosa, da criança indefesa que teve aos poucos que crescer para dar lugar ao novo bebê da casa. A mãe vida nos ligou tão visceralmente que dividíamos quase tudo – até seus pijamas e veja só, suas cuecas na ausência de outra coisa melhor, foram utilizadas por mim, o irmão-menino que você não teve. Além disso dividíamos outras coisas também – o quarto, videogame, computador, chuveiro, televisão, mamãe e papai, enfim...uma infinidade de coisas que hoje me vêm à tona com sabor de saudade.
Nunca me esqueço os pesadelos que tinha, tão terríveis, que me faziam pular de uma cama para outra e acampar em meio a suas pernas, bem no cantinho do colchão, só para ter companhia. Ou das nossas eternas brigas, como aquela vez que te pintei de pixe da cabeça aos pés na véspera de Natal, quando éramos para ganhar as nossas tão sonhadas “bikes”. A vó Jove quase caiu para trás quando viu nossa obra de arte, pintados de pixe até as orelhas. E você, como sempre, me olhava com aquela cara de choro, pensando “te odeio”.
Meu parque de diversões era te provocar, porque eu sabia que você era paciente e porque não, sábio o suficiente para tolerar alguém como eu. A única vez que me lembro de uma provocação sua, foi quando inventou a “esmagada”, quando você esfregava a minha cara por puro divertimento. Enfim, coisas que vem à nossa mente, quando não em nossos sonhos.
Como eu disse, eu poderia ter tido este encontro com qualquer outra pessoa. Mas não foi assim que a vida quis. Sempre me vem à memória aquele seu jeito especial, um jeito que talvez ninguém mais entenda, porque nesta vida, neste nosso destino, nós fomos irmãos um do outro, únicos, irmãos de sangue e alma. Quando penso em você, vejo meu irmão aborrecido, meu irmão-choroso, meu irmão inteligente, meu irmão salva-vidas, meu irmão que não conseguia andar de bicicleta sem rodinhas, meu irmão briguento ou insuportável, meu irmão boa pessoa, meu irmão amigo, meu irmão confidente, meu irmão dormindo, meu irmão estudando, meu irmão sonhador, meu irmão chatíssimo, meu irmão cabeça aberta, meu irmão Che Guevara ou Fidel, meu irmão de Cuba, socialista, professor de história, diplomata, amante da China, leitor fiel, quem me tirava a salvo das provas de Sociologia, irmão mais velho caçula.
Tudo, sempre tudo, mas sempre meu irmão. Nunca só meu, mas, antes de tudo, um sonhador do mundo inteiro. Eu era pequena, antes de descobrir que eu não era tão pequena assim, antes de eu descobrir que sim, eu podia de alguma forma ser grande.
E eu, crescendo cada dia mais com um pedacinho mais alto que eu – você.
Eu não podia ter tido este encontro com qualquer outra pessoa.
O seu eu em mim para sempre.
C.

Saudade, de Marcelo Camelo por Clara Sverner: http://www.youtube.com/watch?v=-gaCT8SF8YI


