segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

para você

Eu podia ter tido este encontro com qualquer outra pessoa. Mas não foi assim que o destino quis. No dia 14 de abril de 1989 eu conheceria alguém incrível, que talvez não esperasse com tamanha ansiedade a minha chegada. Acontece que esta data assinaria de vez o final de um reinado de apenas dois anos e meio. Em meio a berços e chupetas era eu que chegava aos berros para traçarmos juntos um curto caminho rumo à descoberta de nós mesmos.

Que me lembre bem, nunca fui uma pessoa paciente, calma ou leve. Cheguei para abalar sua quietude mansa, chorosa, da criança indefesa que teve aos poucos que crescer para dar lugar ao novo bebê da casa. A mãe vida nos ligou tão visceralmente que dividíamos quase tudo – até seus pijamas e veja só, suas cuecas na ausência de outra coisa melhor, foram utilizadas por mim, o irmão-menino que você não teve. Além disso dividíamos outras coisas também – o quarto, videogame, computador, chuveiro, televisão, mamãe e papai, enfim...uma infinidade de coisas que hoje me vêm à tona com sabor de saudade.

Nunca me esqueço os pesadelos que tinha, tão terríveis, que me faziam pular de uma cama para outra e acampar em meio a suas pernas, bem no cantinho do colchão, só para ter companhia. Ou das nossas eternas brigas, como aquela vez que te pintei de pixe da cabeça aos pés na véspera de Natal, quando éramos para ganhar as nossas tão sonhadas “bikes”. A vó Jove quase caiu para trás quando viu nossa obra de arte, pintados de pixe até as orelhas. E você, como sempre, me olhava com aquela cara de choro, pensando “te odeio”.

Meu parque de diversões era te provocar, porque eu sabia que você era paciente e porque não, sábio o suficiente para tolerar alguém como eu. A única vez que me lembro de uma provocação sua, foi quando inventou a “esmagada”, quando você esfregava a minha cara por puro divertimento. Enfim, coisas que vem à nossa mente, quando não em nossos sonhos.

Como eu disse, eu poderia ter tido este encontro com qualquer outra pessoa. Mas não foi assim que a vida quis. Sempre me vem à memória aquele seu jeito especial, um jeito que talvez ninguém mais entenda, porque nesta vida, neste nosso destino, nós fomos irmãos um do outro, únicos, irmãos de sangue e alma. Quando penso em você, vejo meu irmão aborrecido, meu irmão-choroso, meu irmão inteligente, meu irmão salva-vidas, meu irmão que não conseguia andar de bicicleta sem rodinhas, meu irmão briguento ou insuportável, meu irmão boa pessoa, meu irmão amigo, meu irmão confidente, meu irmão dormindo, meu irmão estudando, meu irmão sonhador, meu irmão chatíssimo, meu irmão cabeça aberta, meu irmão Che Guevara ou Fidel, meu irmão de Cuba, socialista, professor de história, diplomata, amante da China, leitor fiel, quem me tirava a salvo das provas de Sociologia, irmão mais velho caçula.

Tudo, sempre tudo, mas sempre meu irmão. Nunca só meu, mas, antes de tudo, um sonhador do mundo inteiro. Eu era pequena, antes de descobrir que eu não era tão pequena assim, antes de eu descobrir que sim, eu podia de alguma forma ser grande.

E eu, crescendo cada dia mais com um pedacinho mais alto que eu – você.

Eu não podia ter tido este encontro com qualquer outra pessoa.

O seu eu em mim para sempre.

C.





Saudade, de Marcelo Camelo por Clara Sverner: http://www.youtube.com/watch?v=-gaCT8SF8YI

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Seria mais interessante se fosse curioso.


Sabe, às vezes você me irrita.

Pelo simples fato de existir e debochar dos meus esforços.

Não, não vou ser sua pra sempre. E nem quero que seja meu também.

A eternidade é irritante, meu bem. Ninguém aguenta um amor pra sempre, porque sabe a força que ele tem. E por essa mesma força de perenidade, nem ele dura. Na verdade, acho que a vida trata de engolir uma ou outra parte que fica pelo caminho.

Sugiro a você que faça as malas, bem devagarinho.Vá recolhendo tudo o que está pela casa, aquela sua velha bermuda de time, o relógio que te dei de presente e (por favor), não esqueça do álbun de fotografias.

Trate de não deixar nenhuma lembrança, ou recado que me faça lembrar do que posso estar perdendo. Retire da geladeira todos aqueles bilhetes de "eu te amo", ou de "saudades, Fulano". Te dou, na verdade, um dia inteiro pra isso. Um dia inteiro não, um dia inteiro e mais 45 minutos, que é o tempo que eu demoro entre um metrô e outro.

Te peço, leve contigo o DVD da nossa série favorita e também o CD do Chico. Juro que não vou me importar, se numa tarde houver silêncio no lugar de bossa.

Não esqueça que eu odeio lichia, então mais uma vez, por gentileza, retire-as da geladeira e entregue-as à pessoa mais próxima. Hoje te deixo a chave, e a liberdade de ter o apartamento só para você. Faça-o dele o que quiser, só faça-o da forma mais discreta possível. Assim poderei voltar para casa e talvez aprender como se deixa de viver um amor.

Eu prometo, vou conseguir levar na boa. Você pode não estar entendendo o meu silêncio, eu sei. Deve estar querendo dicutir, gritar, me dizer poucas e boas, mas...quando se gosta de verdade, não existem palavras para um último adeus.

Vou te revelar um segredo: eu tenho medo que a gente só esteja fazendo um ao outro mais triste. Nunca me esqueço do dia em que eu consegui um emprego, mesmo com você duvidando do meu esforço. Lembra o que eu fiz com o primeiro salário? Paguei aquele seu curso. E hoje vejo o homem que se tornou, o respeito que os outros tem por você, pela pessoa que é e pelas conquistas que fez.

Mais uma vez te digo, não duvide da força que um amor tem. Do que ele pode fazer na sua vida, se deixar que ele entre. Basta abrir a porta e permitir que ele vá até você.

Por favor, leve contigo só o que foi bom.

E vá em paz, por que eu te amo.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Toda espera tem seu fim.

Ninguém espera satisfeito
A espera é feita de pequenas continuidades de esperança
Um pedaço do seu adeus, que pode ficar pela metade

Ninguém espera satisfeito
Não há quem queira estar do lado da espera,
Desejando na dúvida e tentando crer no amor

Ninguém espera satisfeito
Por mais verdadeira que seja a promessa
Que a volta seja rápida, pois não existe modo de esperar satisfeito

Algo fica e algo maior ainda vai embora
E no tempo, a vontade do mais
Lembranças, momentos

A solidão, sim
Mas que seja pequena a demora
Porque é impossível esperar satisfeito.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Caminhamos Juntos

Aquela rua. A rua entre eu e você.
Ela entre nós.
Ele e eu ali sentados, esperando...O tempo, o vento quente, o vapor na janela do carro.
Dois errantes pelo caminho da vida.
Procurando não perder o que se tinha. Procurando encontrar o que se perdeu.
Ali ficávamos nos devaneios de um amor sem fim, à espera do "não" esquecimento
um do outro.

sábado, 3 de outubro de 2009

It's not because i'm lost that i'm losing

Tá caminhando pro sim?

Talvez para algo mais significativo que isso.
A vida inteira é um eterno sim, só quero algo mais significativo que isso.

Viver com profundidade, verdadeiramente,
Por inteiro.
Um sentimento, uma dia, um momento, uma pessoa.
Você, talvez.


É essa duvida que nos impede.

Você, talvez?

Não quero que caminhe pro sim, com um talvez na cabeça...

domingo, 13 de setembro de 2009

Carta à ti.

Nós somos as nossas escolhas. Sinto te dizer isso.
Sei que nada que eu fale vá mudar algo que está aí dentro.

Cuide de você.

Ouvi esse termo essa semana e agora fez mais sentido para mim do que nunca. Só você sabe até onde a sua força pode te levar.
E a sua fraqueza também.
Eu digo para você cuidar de você, porque talvez você seja o maior bem que possua. Talvez não por inteiro.
Sei que você vive pela metade, achando que a felicidade é a sua própria definição. Ou pelo menos tentando repintar seus quadros, suas paredes.
Essa mania de mentir para todo mundo, só revela sua própria solidão.
Essa mentira é só sua, mais ninguém.
Me vi em você e chorei.
Nosso jeito de viver a vida, como se fôssemos ao mesmo tempo grandes e serenas.
É preciso muita coisa, não é mesmo?
E todas essas coisas nos distanciam de nós mesmos.
Arriscaria dizer que você está crescendo, se transformando. E toda mudança nos obriga a deixarmos algo e ir atrás do melhor.
Você é diferente, não se abala.
Você é diferente, porque sabe que nada é pra sempre.
Nem a dor.
A sua balança pesa muito, mas é claro que podemos ver para qual lado ela pende.
Esse seu dom de transformar tudo em palavras.
É bom porque alivia.

Mas não cura.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Diálogo.


Acho que se bem me lembro, foi na casa de Petrópolis que eles combinaram de se rever.
Tudo muito mal e mal planejado, é verdade. O casamento de ambos atrapalhavam o desejo da adolescência. A meninice de sempre, era ela que voltava aos poucos. Aquele sentimento reprimido por tantos anos já não cabia na tristeza de Carla, que vagueava só, sempre que recebia alguma notícia de Pedro por alto dos amigos em comum. Era aquela falta, aquele pedaço, um dia pela metade, uma vontade não vivida. Eram os dois que um dia tão um, eram os dois que um dia tão dois. Eram eles que um dia nunca foram nada, só Pedro e Carla, ou Carla e Pedro. E só.
Era a insistência em ser bom de novo. Feliz de novo. Naquele mundinho só deles, mais ninguém. Era a saudade reprimida, dos tempos de faculdade. Ser bom de novo....Feliz de novo.
Era a tristeza deixando o rastro.
Foi com certa incerteza que Pedro dirigia a Petrópolis.
O que era aquela carta afinal?
Um convite, uma ausência ou uma desculpa?
Precisava entender porque ela fugia tanto, negava tanto.
Só lembrava das palavras entre pequenos sorrisos: "Pedro, se eu te pedir, você promete me deixar em paz?".


Era uma espécie de querer muito além daquele conhecido.
Ninguém entende um coração que mesmo desejando, é capaz de fechar as portas e ir embora.


- Fica comigo?
- Eu não posso.


Era o amor que nunca sobreviveu muito além do que se via. Ou pelo menos, era o impossível que os dois tornaram um eterno 'não'.


Foi se aproximando do sítio e lembrou todas as vezes que, entre desajeitos de moleque, tentou subir aquele muro de trepadeira. Sorriu. Pela primeira vez sorriu, depois de tanto tempo. Relembrá-la, junto com toda aquela história que viveram, o fazia desejar tê-la de volta, nem que fosse só para ser menino de novo.


Mas a vida, a vida é bruta.


Estava ele, nos seus trinta e poucos anos, às voltas em busca do que se perdeu. Ou do que nunca se teve de verdade.
Abriu a porta e do outro lado era Carla quem sorria. Meu Deus! Era aquele mesmo sorriso com jeito traquina, um tanto quanto tímido e de um mistério teatral.
Não conteve a vontade de abraçá-la, como que para si. Como que para sempre.
Abraçou-a naquela vontade ínfima de devorá-la, de tê-la naquele amor calmo.


Encontrou naquele abraço a resposta que procurava: Eternamente.


Era um finalmente eterno.