terça-feira, 30 de junho de 2009

Diálogo.


Acho que se bem me lembro, foi na casa de Petrópolis que eles combinaram de se rever.
Tudo muito mal e mal planejado, é verdade. O casamento de ambos atrapalhavam o desejo da adolescência. A meninice de sempre, era ela que voltava aos poucos. Aquele sentimento reprimido por tantos anos já não cabia na tristeza de Carla, que vagueava só, sempre que recebia alguma notícia de Pedro por alto dos amigos em comum. Era aquela falta, aquele pedaço, um dia pela metade, uma vontade não vivida. Eram os dois que um dia tão um, eram os dois que um dia tão dois. Eram eles que um dia nunca foram nada, só Pedro e Carla, ou Carla e Pedro. E só.
Era a insistência em ser bom de novo. Feliz de novo. Naquele mundinho só deles, mais ninguém. Era a saudade reprimida, dos tempos de faculdade. Ser bom de novo....Feliz de novo.
Era a tristeza deixando o rastro.
Foi com certa incerteza que Pedro dirigia a Petrópolis.
O que era aquela carta afinal?
Um convite, uma ausência ou uma desculpa?
Precisava entender porque ela fugia tanto, negava tanto.
Só lembrava das palavras entre pequenos sorrisos: "Pedro, se eu te pedir, você promete me deixar em paz?".


Era uma espécie de querer muito além daquele conhecido.
Ninguém entende um coração que mesmo desejando, é capaz de fechar as portas e ir embora.


- Fica comigo?
- Eu não posso.


Era o amor que nunca sobreviveu muito além do que se via. Ou pelo menos, era o impossível que os dois tornaram um eterno 'não'.


Foi se aproximando do sítio e lembrou todas as vezes que, entre desajeitos de moleque, tentou subir aquele muro de trepadeira. Sorriu. Pela primeira vez sorriu, depois de tanto tempo. Relembrá-la, junto com toda aquela história que viveram, o fazia desejar tê-la de volta, nem que fosse só para ser menino de novo.


Mas a vida, a vida é bruta.


Estava ele, nos seus trinta e poucos anos, às voltas em busca do que se perdeu. Ou do que nunca se teve de verdade.
Abriu a porta e do outro lado era Carla quem sorria. Meu Deus! Era aquele mesmo sorriso com jeito traquina, um tanto quanto tímido e de um mistério teatral.
Não conteve a vontade de abraçá-la, como que para si. Como que para sempre.
Abraçou-a naquela vontade ínfima de devorá-la, de tê-la naquele amor calmo.


Encontrou naquele abraço a resposta que procurava: Eternamente.


Era um finalmente eterno.

sábado, 6 de junho de 2009

?

As minhas urgências. Elas são impossíveis.
São fetiches, coisas infinitas. E ficam martelando a minha cabeça, dia e noite. Noite e dia. E semanas. Meses talvez.
As minhas urgências me tiram do sério, porque me fazem querer ir além do que posso. Me fazem percorrer caminhos que não entendo, lugares que desconheço.
Essas minhas urgências me fazem quase sempre escrava dos meus domínios.
Ou do que eu pensava que fossem meus domínios.
E acabo esbarrando nas minhas limitações, porque querer ir além não é avançar.
Avançar não é feito de querer. É feito de ação, de urgência.
Mas essas urgências me impedem, me distraem do que eu preciso.
Ás vezes penso que elas me dariam coisas que curariam minha vontade do agora.
Metira.
É sempre esse desejo presente que me trasmuta.
Cansei de viver a vida de ontens, mas o meu passado fica o tempo inteiro tentando arrumar um lugar no meu futuro. E nas minha urgências.
Quando encosto a cabeça no travesseiro, deito minha paz fingida de um dia inteiro e dou lugar à minha inscostância. Abre-se uma brecha ínfima entre o que eu tento ser e o que eu sou. Abre-se uma brecha entre as minhas possibilidades e impossibilidades. Abre-se uma brecha entre o mim e o eu. Entre o mim e os outros. Entre o mim e o Deus.
Mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Eu diria: Mais vale uma ninhada inteira voando do que ter uma pássaro preso em minhas mãos.
A vida é isso, liberdade e ponto. E feita de muitas urgências, que nos impulsionam, que nos levam a buscar alguém melhor do que esse alguém do agora.


Sejamos humanos nesse mundo feito de plástico.