quinta-feira, 23 de abril de 2009

Desliga a tevê





Sim, eu era só uma menina.
Escondi os defeitos e remendei as qualidades.
Não importava como, eu queria ser.
Eu precisava alimentar muito mais que minha sede, é verdade.
Na falta de abrigo, eu mesma fui capaz de tentar construir algo bom.
Juntei toda a falta de coragem e vez em quando me metia a aprender truques para sobreviver.
Mal e mal sobrava um beijo no café da manhã, me relembrando que existia ainda o afeto.
Desde cedo vi como as pessoas preservam um tipo de sentimento que é um quase.
Um quase nada.
É como se o outro, por medo ou descrença, nutrisse um semi amor, uma semi amizade.
Naquele momento eu soube como era ver o mundo por um buraco de fechadura.
A gente acaba achando que por ver bem de perto, consegue ver tudo.
Na verdade, a proximidade das coisas mostra só parte delas.
Não sei bem quando, eu descobri que a vida é para seres que entraram em extinção.
Tem alguns que não merecem, mas não por ignorância.
São aqueles que simplesmente não se importam com uma ou outra falta.
E, sim eu era só uma menina.



Mas, a duras penas, tive que aprender a andar por minhas próprias pernas.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Beijonãomeliga

Porque reavivar? Qual o sentido de tudo isso?
Eu disse que não queria voltar atrás, mas foi você quem insistiu, dizendo que faria valer a pena.
Pois bem, não valeu. Eu quero o meu tempo e a minha paz de volta.
Sim, ela vale muito nos dias que tenho passado.
Estava no paraíso, fui ao encontro de mim mesma. Acontece que nem assim foi possível saber por onde eu me perdi.
Na verdade, acho que não mal me perdi, só fui transformada em algo melhor.
Já que a dor pareceu impulso de menina mimada, no mínimo traria algum benefício.
Obrigada pelos pequenos ajustes que com o tempo, me fizeram bem maior do que um dia eu já fui.

Agora eu sei que a vida é bem mais.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Aquela vez como se fosse a última


E livrai-nos de todo mal, amém!
O ônibus que atrasou, o leite que esfriou e o mal presságio anunciando.
E livrai-nos de todo o mal, amém!

Na sua rotina diária ela usava sua força com inteligência. E delicadeza de gestos.
Sussurava uma ou outra prece no meio do caminho.
"Deus me proteja", pensava ela quando ia ao trabalho.
"Mas que cidade grande! Quanto pé e quanta boca! Tudo junto!".
Não fosse a feliz dignidade com que tentava pagar suas contas em dia, era ora ou outra tapeada pelo destino.
Pensava: "Parabéns, Mariana! Mais um dia como todos os outros!".
Era a mesma sensação absoluta que doía.
Não conseguia ao menos se dar conta que melancia não combinava nem um pouco com limão.
Mas ela, mesmo que aos poucos, queria de algum modo "descombinar', não fazer parte de.
Sabia que da contradição nascia uma estrela. Mas, e da dor?
Na verdade a vida dela não estava muito afeita a nascimentos.
Todos os dissabores pelos quais foi obrigada a passar, soavam mais como algo parecido com melodia fúnebre.
Foram as decepções que a afogaram, e não sabia mais o que era acreditar.
Só sabia duvidar, ou não, da sua própria descrença.
Vire e meche a marcha fúnebre voltava, antecipando mais um nascimento.
Mas renascer não é tarefa simples. É contradizer tudo o que já foi dito.
E dizer de novo, na tentativa de ser ouvido. E cada vez mais alto.
Remendou desculpas para o seu 'insucesso' pessoal.
Dizia mesmo que era preciso saber viver leve.
Mas, como fazer isso se os seus ombros são obrigados a suportar o mundo?
Pelo menos ter a certeza de que ele não pesa mais que a mão de uma criança.
Ainda assim, ela acreditava na fé de esperar pela esperança.
Na fé gratuita de só ter fé.
Aquela genuína, que também tem a certeza de que tudo segue adiante.