terça-feira, 7 de abril de 2009

Aquela vez como se fosse a última


E livrai-nos de todo mal, amém!
O ônibus que atrasou, o leite que esfriou e o mal presságio anunciando.
E livrai-nos de todo o mal, amém!

Na sua rotina diária ela usava sua força com inteligência. E delicadeza de gestos.
Sussurava uma ou outra prece no meio do caminho.
"Deus me proteja", pensava ela quando ia ao trabalho.
"Mas que cidade grande! Quanto pé e quanta boca! Tudo junto!".
Não fosse a feliz dignidade com que tentava pagar suas contas em dia, era ora ou outra tapeada pelo destino.
Pensava: "Parabéns, Mariana! Mais um dia como todos os outros!".
Era a mesma sensação absoluta que doía.
Não conseguia ao menos se dar conta que melancia não combinava nem um pouco com limão.
Mas ela, mesmo que aos poucos, queria de algum modo "descombinar', não fazer parte de.
Sabia que da contradição nascia uma estrela. Mas, e da dor?
Na verdade a vida dela não estava muito afeita a nascimentos.
Todos os dissabores pelos quais foi obrigada a passar, soavam mais como algo parecido com melodia fúnebre.
Foram as decepções que a afogaram, e não sabia mais o que era acreditar.
Só sabia duvidar, ou não, da sua própria descrença.
Vire e meche a marcha fúnebre voltava, antecipando mais um nascimento.
Mas renascer não é tarefa simples. É contradizer tudo o que já foi dito.
E dizer de novo, na tentativa de ser ouvido. E cada vez mais alto.
Remendou desculpas para o seu 'insucesso' pessoal.
Dizia mesmo que era preciso saber viver leve.
Mas, como fazer isso se os seus ombros são obrigados a suportar o mundo?
Pelo menos ter a certeza de que ele não pesa mais que a mão de uma criança.
Ainda assim, ela acreditava na fé de esperar pela esperança.
Na fé gratuita de só ter fé.
Aquela genuína, que também tem a certeza de que tudo segue adiante.

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